Mãe fala da importância de ser franca sobre sua bissexualidade com o filho

“Sempre foi ensinado que a subjetividade individual deveria ser respeitada”, diz Sue Ellen Nhamandu, que tem um filho de 10 anos. Em uma sociedade em que a binariedade...

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“Sempre foi ensinado que a subjetividade individual deveria ser respeitada”, diz Sue Ellen Nhamandu, que tem um filho de 10 anos.

Em uma sociedade em que a binariedade é duramente criticada (“ou você é isso ou aquilo, mas não os dois, ok?”), o processo de se descobrir bissexual pode ser longo e dolorido. Porém, tudo fica ainda mais desafiador quando é preciso quebrar os preconceitos que rodeiam a orientação sexual ao ter um filho. Esse é o caso de Sue Ellen Nhamandu, de 35 anos, filósofa, artista, terapeuta sexual e mãe do Pablo Miguel, de 10 anos. Atualmente, ela está grávida do segundo filho, aos 7 meses de gestação.

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Sue Ellen foi apaixonada por meninos no colégio, ainda que achasse mulheres bonitas. No entanto, o cenário mudou completamente aos 15 anos, quando a melhor amiga tornou-se sua grande paixão. O que poderia ser um amor adolescente gostoso de ser vivido, a filósofa lembra com pesar. “Não aceitava a lesbianidade em mim”.

Mesmo assim, experiências desse tipo continuaram a acontecer, afinal, orientação sexual não é uma escolha. Ela simplesmente existe e há o processo de reconhecê-la. “Aos 19 anos uma amiga do trabalho me beijou no banheiro e me apaixonei por uma menina do curso de teatro”, revela a artista.

Junto com as situações que Sue Ellen viveu com figuras femininas, estar dentro do ambiente teatral também a ajudou a enfrentar os conflitos internos sobre a sexualidade.

“No teatro existiam pessoas de todos os tipos e ninguém tinha vergonha de praticar sua homossexualidade, ali entendi que eu podia ser eu. Foi quando comecei a frequentar a parada LGBTI+ e a buscar entender porque havia me auto repreendido tanto tempo”.

A situação dentro de casa

Em meio aos conflitos internos do processo, reconhecer a própria sexualidade também costuma gerar embates dentro de casa. Essa foi a realidade de Sue Ellen, que foi bombardeada de um lado com as duras palavras da mãe sobre ela se identificar como bissexual, enquanto que o pai da artista optou pelo silêncio quanto ao assunto.

“Meu pai sempre manteve uma distância de quem se pratica desconhecedor dessa informação, mesmo quando me ouvia dizer ‘minha namorada’. Acho que a falta de repertório dele em expressar a aprovação para o diferente e o socialmente reprovado, faz com que por respeito ele se abstenha de se comunicar”, explica.

A vontade de ser mãe

Em pleno século 21, muita gente ainda acha que família e comunidade LGBT são coisas conflitantes e Sue Ellen é um exemplo de que isso é uma grande mentira. Pablo foi fruto de uma gravidez planejada e muito festejada, tanto pela mãe quanto pelo pai do garoto – que também é bissexual.

“Foi mais que [uma gravidez] planejada, foi desejada com todo meu ser”, define a artista. Ainda que possa parecer cedo, a Sue Ellen teve certeza de que queria ser mãe aos 16 anos. Só que a tentativa de engravidar só começou aos 22 anos – e o primogênito veio um ano depois.

“Foi uma gestação planejada, de uma relação com meu primeiro namorado, uma relação de 10 anos, e um bebê de parto natural, na casa de parto, humanizado e com o mínimo de intervenções”. Essa preocupação de proporcionar uma vida rodeada de naturalidade também fez com que Sue Ellen amamentasse Pablo até os cinco anos de idade, para que fosse um auto-desmame “sem traumas e abandono” – como ela pontua.

Atualmente, Sue Ellen está grávida do segundo filho, que vai se chamar Henri. O pequeno é fruto de outra relação da artista – e ela afirma estar mais feliz do que nunca.